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Flutuando..
Engraxei meus sapatos e os fiz brilhar, alinhei minha calça
com vincos, escolhi meu cinto e a camisa que melhor me
vestia. Sai como se não ainda tivesse feito, era o eleito e
naquela noite, só queria dançar. Entrei no meu carro liguei
o rádio escolhi a estação e guiei sem direção. Gosto da
noite das luzes de gás hélio do centro da cidade, um
sombrio amarelo que não me deixa assustado, porém nem
tão seguro assim. Ouço música por todos os cantos, a
cidade não dorme, me proporcionando inúmeros encantos,
quero dançar, sair mesmo do chão, flutuar bailando, feito
trigo no campo que vira e rodopia com a brisa, quero
deslizar assim no ar. Escolho a cena e com requinte entro
na sala, ouço a orquestra, me lembro sempre de Frank
Sinatra. Peço uma bebida pra lubrificar a alma e olho pro
meio do salão, procurando sempre a melhor ocasião de
entrar na festa. Reparo os casais que fazem daquele centro
um enorme moinho, onde damas giram e cavaleiros
seguem, olhares atentos vejo por todos os cantos a ritmo
de bolero e isso pedi um bom tinto. Meu desejo essa noite
e poder estar ali no centro dançando também, girando
seguindo e enfeitando com um belo par. Derrepente alguém
me chama atenção, uma dama de longo preto com pedras
brilhantes, cabelo preso, salto de bico quadrado, pernas
torneadas e olhar fulminante. Acompanho teu bailar como
um caçador a sua presa, fico de espreita, teu jeito de no
chão tocar me encanta, tua forma de segurar teu par me
transforma, agora sou refém, vítima que vislumbra com
atenção toda aquela classe em exibição. Ela flutua e eu
me rendo, nunca vi nada igual, então me entrego, peço
outro vinho, agora só sou espectador da beleza e da magia
que com elegância ela espalha no salão. Admirador passivo
fico quieto, não quero barulho e eu apenas de lado, todo
calado, sinto essa dama flutuando no salão. Me apaixonei
de novo, criei ali um romance, me contive, mas me perdi,
como se não houvesse alternativa, me despedi, deixei-lhe
um olhar tímido um sorriso mudo e a figura de um
homem abatido gemendo em sussurros pelo imenso prazer
que foi vê-la dançar. Sobrou-me também um pequeno
sorriso de canto logo após um suspiro de término, mas
suou a mim como um convite pra num outro momento,
numa outra hora quem sabe, fazer-lhe par!
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